A canetada de Lula ou Flávio Bolsonaro que pode destravar até 10 IPOs próximo ano, segundo o Bradesco
Estimativa é de pelo menos 10 IPOs até o fim de 2027 se questão fiscal virar prioridade para o executivo (Gorodenkoff/Getty Images)
A primeira grande assinatura do próximo presidente da República — seja Flávio Bolsonaro ou Luiz Inácio Lula da Silva — pode valer mais para o mercado financeiro do que qualquer corte imediato da Selic. Na avaliação de executivos do Bradesco BBI, uma única sinalização fiscal considerada crível logo no início de 2027 teria potencial para derrubar os juros futuros, reacender o apetite de investidores estrangeiros e abrir espaço para entre cinco e dez ofertas públicas iniciais de ações (IPOs) já no próximo ano.
“Basta uma canetada fiscal que demonstre compromisso com a redução da relação dívida/PIB para os juros futuros desabarem. Não necessita ser uma grande reforma, porque sabemos que os dois principais candidatos não devem promover mudanças estruturais. O mercado precisa apenas de uma sinalização fiscal crível”, afirmou André Moor, head de Investment Banking do Bradesco BBI em almoço com jornalistas nesta quarta-feira, 8.
Na avaliação dos banqueiros, o principal obstáculo para a retomada do mercado de capitais já não é a inflação acima do teto da meta. Outros países convivem com índices semelhantes e, ainda assim, operam com juros inferiores aos do Brasil. O problema, na visão deles, está na desconfiança em relação às contas públicas. Por isso, a curva longa de juros passou a responder quase exclusivamente à percepção de risco fiscal.
Na prática, isso significa que uma reforma administrativa, um novo marco de controle de gastos ou qualquer medida capaz de convencer investidores de que a dívida pública seguirá uma trajetória sustentável poderia provocar uma queda relevante dos juros futuros. É justamente esse movimento que, segundo os executivos, destravaria uma nova janela para IPOs.
Nesse cenário, a expectativa é de que entre cinco e dez grandes empresas consigam abrir capital já no próximo ano. Entre os setores mais citados pelos banqueiros aparecem infraestrutura, energia, sistema financeiro, transmissão de energia e empresas com contratos de longo prazo e receitas previsíveis. Essas companhias são vistas como capazes de atrair investidores mesmo antes de uma queda expressiva da Selic, desde que a curva futura de juros recue.
“Estimamos ofertas que movimentem pelo menos 2 bilhões de reais por IPO. Ou seja, estamos falando de empresas de grande porte”, explicou George Costa e Silva, head de Equity Capital Markets do Bradesco BBI.
Hoje, porém, esse processo continua praticamente interrompido. A combinação de juros elevados, guerra no Oriente Médio e migração de recursos globais para empresas ligadas à inteligência artificial reduziu o fluxo destinado aos mercados emergentes e limitou as operações na Bolsa brasileira.
Ainda assim, os executivos avaliam que 2026 já representa uma melhora importante em relação aos dois anos anteriores. Depois de praticamente não haver IPOs desde 2021, o mercado voltou a registrar uma estreia na Bolsa, com a Compass, além de uma sequência de follow-ons, indicando que a recuperação começou, ainda que de forma gradual.
A segunda onda de IPOs
A expectativa, entretanto, é que o maior movimento venha depois. Com a consolidação da queda dos juros reais, uma segunda onda de IPOs poderá incluir dezenas de empresas de médio porte, muitas delas controladas por fundos de private equity que aguardam há anos uma reabertura consistente do mercado.
Essa nova etapa reuniria companhias com maior potencial de crescimento, mas também com fluxo de caixa menos previsível e perfil de risco mais elevado. São empresas dos mais diversos segmentos da economia que hoje permanecem fora da Bolsa porque o custo de capital ainda torna inviável uma abertura de capital. “Esse seria um cenário muito otimista, com a Selic em um dígito, o que não faz parte do cenário-base”, afirmou André Moor.
Em outras palavras, a retomada do mercado de IPOs dependerá menos da velocidade dos cortes da Selic e muito mais da credibilidade da política fiscal adotada pelo próximo governo. Se a primeira grande decisão econômica do futuro presidente convencer investidores de que a dívida pública entrou em uma trajetória sustentável, o mercado de capitais poderá voltar a viver um ciclo semelhante ao observado entre 2019 e 2021, quando dezenas de empresas aproveitaram o ambiente de juros baixos para estrear na Bolsa.
Com informações de VEJA
