Afastamentos por burnout disparam mais de 800% em quatro anos; VEJA:
Foto: Otávio Camargo/Arte g1
O Brasil vive um agravamento expressivo da crise de saúde mental no ambiente de trabalho, afetando diretamente milhares de profissionais em todo o país. Dados do Ministério da Previdência Social, obtidos com exclusividade pelo g1, indicam que os afastamentos por burnout cresceram 823% nos últimos quatro anos.
Em 2025, foram registrados 7.595 benefícios por incapacidade temporária relacionados ao esgotamento profissional. Em 2021, esse número era de apenas 823 — um salto de quase nove vezes no período.
O aumento também aparece nos registros do Ministério Público do Trabalho (MPT). As denúncias envolvendo saúde mental no trabalho passaram de 190, em 2021, para 1.022 em 2025 — crescimento de aproximadamente 438%, com 832 casos a mais.
Já em 2024, o país havia atingido um recorde histórico de afastamentos por transtornos mentais, segundo reportagem anterior do g1. Em 2025, a situação não apenas se mantém, como se intensifica: mais de 500 mil licenças foram concedidas por esse tipo de adoecimento.
Diante desse cenário, o governo federal anunciou a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que trata da gestão de riscos psicossociais e prevê penalidades para empresas que adotarem práticas prejudiciais à saúde mental dos trabalhadores.
A medida estava prevista para entrar em vigor em maio de 2025, mas, após pressão de entidades empresariais, foi adiada para maio deste ano.
Mas o que explica esse crescimento? O que está por trás do avanço do esgotamento profissional?
Especialistas apontam que os transtornos mentais têm origem multifatorial, ou seja, não há uma única causa. Fatores como vínculos de trabalho precários, jornadas extensas, baixos salários, metas difíceis de alcançar e pressão constante contribuem para um ambiente propício ao estresse crônico.
A pandemia também deixou impactos duradouros. Apesar da redução do desemprego e da informalidade, permanecem efeitos como a intensificação do ritmo de trabalho e o uso constante de tecnologias digitais.
Além disso, o aumento do emprego formal não veio acompanhado de melhorias nas condições de trabalho. Soma-se a isso a falta de auditores fiscais, o que limita a fiscalização das relações trabalhistas no país.
O que justifica esse aumento?
Para especialistas, os números refletem não apenas um crescimento real dos casos, mas também maior reconhecimento do problema e mudanças na forma de registrar o sofrimento mental ligado ao trabalho.
Segundo o psiquiatra Arthur Danila, coordenador do PROMEV, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, o aumento resulta de três fatores simultâneos.
“O trabalho ficou mais acelerado, mais conectado, mais monitorado e mais competitivo. Ao mesmo tempo, passamos a reconhecer melhor que parte do sofrimento mental tem relação direta com o ambiente ocupacional”, afirma.
De acordo com o especialista, houve uma deterioração das condições psicossociais no ambiente profissional. Muitos trabalhadores lidam com alta demanda, pressão constante, insegurança econômica e pouco tempo de recuperação entre jornadas.
Outro fator relevante é a chamada jornada invisível ampliada. Mesmo fora do expediente, muitos permanecem conectados por mensagens, e-mails e plataformas digitais, o que dificulta o descanso mental.
“O trabalhador contemporâneo vive mais conectado, mais monitorado, mais competitivo e com menos previsibilidade. É uma combinação muito tóxica”, explica.
Esse estado contínuo de alerta, segundo o especialista, mantém o organismo sob constante tensão.
Ele afirma que essa condição compromete a recuperação do corpo: “O sono piora, a irritabilidade aumenta, a concentração cai. A fronteira entre trabalho e vida pessoal foi corroída. O descanso existe fisicamente, mas não mentalmente”, diz.
Desde 2022, o burnout passou a integrar a Classificação Internacional de Doenças (CID-11), da Organização Mundial da Saúde (OMS), deixando de ser tratado apenas como estresse e passando a ser reconhecido como fenômeno ocupacional.
Isso contribuiu para uma definição mais precisa do conceito. Diferente de uma doença isolada, o burnout é caracterizado como resultado do estresse crônico no trabalho que não foi devidamente gerenciado.
O quadro envolve três dimensões principais: exaustão intensa, distanciamento mental ou cinismo em relação ao trabalho e redução da eficiência profissional.
“Não se trata de usar o termo como rótulo para qualquer sofrimento. É preciso avaliar se os sintomas estão diretamente relacionados ao contexto de trabalho”, afirma o psiquiatra.
O especialista também aponta uma redução parcial do estigma em torno da saúde mental. Mais pessoas têm buscado ajuda antes de um colapso completo, e o tema ganhou espaço dentro de empresas e instituições. Ainda assim, os casos chegam mais complexos aos serviços de saúde.
“Muitos pacientes apresentam insônia persistente, crises de ansiedade, sintomas depressivos e prejuízo significativo na vida pessoal e familiar. O risco é banalizar o burnout, mas é ainda mais grave tratá-lo como fragilidade individual”, diz Danila.
Segundo ele, há indícios de que o problema era subnotificado no passado. Muitos casos eram classificados como depressão ou ansiedade, sem ligação formal com o trabalho — ou sequer eram registrados.
“Havia vergonha em associar adoecimento mental ao trabalho, tanto por parte dos trabalhadores quanto das empresas.”
— Arthur Danila, médico psiquiatra.
Quem são esses trabalhadores?
Relatos de profissionais ajudam a entender como o burnout se manifesta no cotidiano.
Marcela Moreira, formada em física e atuante na área de dados em um banco, começou a perceber sinais de esgotamento após anos lidando com metas rígidas, pressão constante e mudanças frequentes de equipe.
Segundo ela, o ambiente já era marcado por estresse, mas a situação piorou ao assumir funções com maior urgência e cobrança diária.
“O trabalho exige que você esteja sempre se provando, aprendendo sozinho e entregando rápido. Isso vai se acumulando”, conta.
“Existe uma pressão muito grande para atingir metas. Elas não podem ser impossíveis, mas também não podem ser fáceis. Isso cria uma cobrança constante, que foge do saudável”, afirma.
Com o tempo, o cansaço virou rotina.
“Aquilo estava tão normalizado que eu achava que era só o meu estado padrão de sobrevivência”, relata.
O alerta veio quando pessoas próximas passaram a questionar seu estado emocional.
Ela descreve sintomas como alternância entre apatia e ansiedade intensa:
“Ou eu não conseguia me importar com nada, ou entrava em pânico. Não tinha meio-termo.”
Após orientação médica, foi afastada do trabalho e, posteriormente, demitida.
“Foi um baque no ego, mas a sensação de alívio físico foi imediata. Era como se meu corpo entendesse que a pressão tinha acabado.”
Hoje, busca reorganizar a vida e cuidar da saúde mental.
Outro caso é o de Cristine Oittica, pedagoga e doutoranda com mais de 15 anos de experiência na educação pública.
Ela relata que começou a adoecer após ingressar em uma fundação ligada ao sistema financeiro, em 2022.
Apesar da experiência, foi direcionada a tarefas operacionais e excluída de projetos relevantes.
“Eu via colegas com o mesmo cargo sendo alocados em projetos, crescendo e sendo promovidos. Eu não tinha projeto, não tinha estado, não tinha lugar”, relata.
A falta de reconhecimento gerou frustração crescente:
“Chegou um momento em que eu pensei: o problema sou eu. Comecei a trabalhar cada vez mais para tentar provar meu valor.”
Os impactos apareceram na saúde, com sintomas como insônia, ansiedade, exaustão e isolamento.
“A gente batia o ponto, mas nunca parava de trabalhar. O trabalho ocupava o almoço, o jantar, a viagem, a cabeça”, afirma.
“Eu trabalhava 12, 14 horas por dia, mesmo fora do expediente. O corpo entra em estado de alerta constante”, completa.
Após afastamentos médicos e denúncias internas, foi demitida.
“A mensagem que ficou é que tudo o que eu fiz não foi suficiente. Isso desmonta a pessoa”, afirma.
Hoje, segue em tratamento e alerta para a necessidade de um debate mais profundo sobre o tema:
“O adoecimento tem cor, gênero, classe social. Não é só contratar. É preciso cuidar do que acontece depois.”
— Cristine Reis Oittica, 36 anos, pedagoga e doutoranda.
O que diz a legislação?
A inclusão do burnout na CID-11 ampliou a visibilidade do problema, mas não mudou automaticamente o enquadramento legal no Brasil.
A advogada Nathalia Sequeira Coelho explica que o reconhecimento jurídico depende da comprovação da relação entre o trabalho e o adoecimento.
Quando comprovado, o burnout pode ser equiparado a acidente de trabalho, garantindo direitos como estabilidade e indenização.
No entanto, a comprovação exige documentos, perícias e provas das condições de trabalho — o que nem sempre é fácil.
“A prova muitas vezes depende de testemunhas, e colegas ainda têm receio de se comprometer”, afirma.
Há também distinção entre benefícios previdenciários:
- Sem nexo ocupacional: benefício comum (B31)
- Com nexo ocupacional: benefício acidentário (B91)
No segundo caso, o trabalhador tem direito à estabilidade de 12 meses e ao depósito do FGTS durante o afastamento.
Atraso na NR-1
A atualização da NR-1, que inclui riscos psicossociais na fiscalização, segue em debate.
A norma permitiria penalizar empresas por práticas como metas abusivas, jornadas extensas, assédio moral e falta de suporte ao trabalhador.
Prevista inicialmente para 2025, foi adiada para maio de 2026 e ainda pode sofrer novos atrasos.
O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, afirmou que não há intenção de novo adiamento, salvo acordo entre empresas e trabalhadores.
Enquanto isso, especialistas alertam para a urgência de medidas efetivas.
O crescimento dos afastamentos reforça a necessidade de mudanças nas condições de trabalho para prevenir o adoecimento mental no país.
Com informações de G1.
