BASTIDORES DA POLÍTICA: Derrotas no Congresso estremecem base de Lula para tentativa de reeleição

Lula e Messias; Alcolumbre e Motta — Foto: Cristiano Mariz/ Brenno Carvalho

As recentes derrotas do governo no Congresso Nacional têm fragilizado a base de apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e colocado em risco a tramitação de pautas consideradas estratégicas em ano eleitoral. O cenário se agravou diante do aumento da tensão com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, dificultando o avanço de propostas como a PEC da Segurança Pública.

A sete meses do fim de seu terceiro mandato, Lula enfrenta pressão adicional de pesquisas que indicam incertezas quanto à reeleição. Interlocutores avaliam que este é o momento mais delicado da relação entre o Executivo e o Legislativo. No governo, cresce a preocupação de que um rompimento com Alcolumbre comprometa a agenda do Palácio do Planalto e abra espaço para retaliações, como a aprovação de pautas-bomba no segundo semestre.

O senador é apontado por aliados de Lula como figura central em episódios recentes, como a rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal e a derrubada do veto presidencial ao projeto sobre dosimetria de penas. Alcolumbre, no entanto, nega atuação para derrotar o governo. As votações ampliaram a pressão sobre o Planalto e reforçaram o discurso da oposição de enfraquecimento do Executivo.

Dentro do próprio governo, há divergência sobre a estratégia a ser adotada. Parte dos aliados defende um enfrentamento direto com o Congresso, retomando o discurso de antagonismo institucional. Outro grupo, porém, prega cautela e aposta na recomposição do diálogo para evitar prejuízos à governabilidade e às alianças eleitorais.

O senador Weverton Rocha afirmou que Lula tem experiência para lidar com o cenário. Segundo ele, o presidente deve reunir sua base para reorganizar a articulação política. Já na avaliação do senador Otto Alencar, a derrota envolvendo Messias representa um revés relevante, mas não compromete totalmente a relação entre os Poderes.

Nos bastidores, aliados atribuem os movimentos de Alcolumbre também ao contexto eleitoral e à sua intenção de disputar novamente a presidência do Senado em 2027. Há ainda relatos de insatisfação com o governo e com investigações conduzidas pela Polícia Federal que atingem parlamentares.

Diante desse cenário, o Planalto passou a atuar em um ambiente mais fragmentado, com necessidade de negociações caso a caso. Propostas prioritárias, como o fim da escala 6×1, a PEC da Segurança Pública e medidas para conter o preço dos combustíveis, exigem maior articulação política. A PEC da Segurança, por exemplo, segue travada no Senado e ainda não avançou sequer para a Comissão de Constituição e Justiça.

Com dificuldades para avançar em pautas mais complexas, o governo tem priorizado temas de maior apelo social, como a redução da jornada de trabalho. Na área econômica, também busca destravar projetos como o Redata, voltado a incentivos para data centers, e iniciativas para reduzir impostos sobre combustíveis.

As derrotas recentes são interpretadas por parlamentares como sinal de fortalecimento do Legislativo e de insatisfação com o governo. Episódios anteriores, como a derrubada de decretos sobre o Imposto sobre Operações Financeiras, já haviam evidenciado dificuldades na coordenação da base. Foi a primeira vez desde 1992, no governo de Fernando Collor, que um decreto presidencial foi rejeitado pelo Congresso.

Além disso, fatores eleitorais influenciam o cenário político. Alcolumbre tem buscado aproximação com setores da direita, enquanto o presidente da Câmara, Hugo Motta, articula apoio para sua própria reeleição e para a candidatura de seu pai ao Senado.

Entre os pontos de atenção do governo estão possíveis pautas-bomba, como mudanças no teto de faturamento do MEI e a concessão de aposentadoria especial a agentes comunitários, que podem impactar as contas públicas.

Outros episódios recentes também ilustram os desafios enfrentados pelo Executivo, como alterações na estrutura ministerial, a derrubada de vetos no licenciamento ambiental e a atuação da oposição em comissões parlamentares, incluindo a CPI do INSS.

Com informações de O Globo.