BOMBA: Policiais civis de SP destruíam provas em troca de propina, apontam MP e PF
Reprodução/ UOL
Uma operação do Gaeco do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Federal cumpriu hoje mandados contra suspeitos de operar um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro dentro da Polícia Civil de São Paulo.
O que aconteceu
Grupo criminoso que operava em departamentos diferentes da Polícia Civil de São Paulo recebia dinheiro para fraudar investigações e destruir provas. Segundo as investigações do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o dinheiro recebido por eles era lavado com empresas de fachada.
Esquema contava com participação de policiais, advogados e doleiros, segundo as investigações. Um dos setores onde o esquema era operado é o Deic (Departamento de Investigações Criminais), segundo o MP-SP. Também foram encontrados indícios de corrupção no 16º DP da Vila Clementino e no Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania.
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Nove pessoas foram presas, dos onze mandados de prisão que foram decretados. Unidades policiais estão entre os endereços de buscas. A Justiça também pediu o bloqueio de bens de investigados e cumpriu 25 mandados de busca e apreensão, segundo o MP-SP. As identidades dos presos ainda não foram informadas.
Sete policiais civis da ativa estão entre os que participaram do esquema, segundo a investigação. Um ex-policial, que hoje atua como advogado, também participaria do grupo criminoso.
A prisão de quatro desses policiais foi pedida pela Justiça hoje. São eles: Roldnei Eduardo dos Reis Baptista, investigador, apontado como um dos principais articuladores do esquema; Rogério Coichev Teixeira, investigador; Ciro Borges Magalhães Ferraz, escrivão, e João Eduardo da Silva, delegado. O UOL não conseguiu acesso às defesas dele até o momento. O espaço segue aberto para manifestação.
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo afirmou ao UOL que a Polícia Civil não compactua com desvios de conduta por parte de seus integrantes. “A instituição adotará todas as medidas legais e disciplinares cabíveis caso sejam confirmadas quaisquer irregularidades”.
Corregedoria da polícia foi acionada e todas as unidades da corporação devem passar por pente-fino. Segundo o Ministério Público, ações extraordinárias de fiscalização serão feitas para “promover responsabilização” de agentes.
Investigação sobre doleiros levou MP até esquema
Os indícios de corrupção dentro da Polícia Civil foram encontrados na análise de um material apreendido na Operação Recidere, feita pela PF com a Receita Federal em 2023. A ação focou em desarticular um núcleo de doleiros que enviava remessas ilegais ao exterior com empresas de fachada.
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No material, foi possível ver conversas entre investigados para ocultar e destruir provas de operações que eram lideradas pela Polícia Civil. Uma dessas operações foi a Fractal, deflagrada em outubro de 2022, pela 1ª Delegacia da Divisão de Investigações sobre Crimes contra a Administração, Combate à Corrupção e Lavagem de Capitais.
O contato entre o grupo criminoso e os policiais era feito com ajuda de advogados, segundo mostram as mensagens. O inquérito da Operação Fractal está em trâmite há quase cinco anos e não teve solução até o momento.
Doleiros da Lava Jato teriam pagado para interferir em investigações
Em uma das mensagens interceptadas na investigação, um investigado afirmou que pagou a um agente do DPCC para “resolver o problema” dos doleiros Meire Poza e Leonardo Meirelles. Dias após o pagamento, os dois prestaram depoimento na sede do DPCC pelas investigações envolvendo a Operação Fractal.
“Já está tudo acertado com os caras lá dentro”, diz uma mensagem enviada pelo investigado à doleira, segundo o MP. A prisão preventiva de Leonardo Meirelles e de Meire Poza foi pedida pela Justiça na operação de hoje. O UOL tenta encontrar as defesas dos dois.
Criminosos se encontraram em delegacia para destruir prova
Em um dos casos de comprometimento de provas, os suspeitos se encontraram com policiais para trocar um HD apreendido durante buscas na Operação Fractal. O encontro para trocar o HD com provas por um vazio foi marcado na sede do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania, no centro de São Paulo, segundo a investigação.
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Outro ponto de encontro para o pagamento de propina foi o hangar da Polícia Civil, no aeroporto do Campo de Marte. Lá, um dos suspeitos entregou R$ 50 mil em dinheiro nas mãos de um dos policiais.
Em um terceiro caso, um policial civil enviou um áudio a um dos investigados afirmando que nada em relação a ele foi encontrado nas mídias apreendidas na operação. Os suspeitos também teriam conversado sobre delegacias de interesse e sobre possíveis mudanças no corpo policial de unidades que já investigavam crimes dos envolvidos no esquema.
Propina era ocultada com esquema de vale-alimentação
O grupo criminoso convertia dinheiro em créditos de vale-alimentação para poder ocultar propina a policiais civis, segundo a investigação. A ocultação acontecia para lavar dinheiro proveniente de tráfico de drogas.
O mecanismo, segundo os investigadores, usava estabelecimentos comerciais fictícios para registrar compras que nunca ocorreram. Eram padarias e pequenos mercados, segundo a investigação do MPSP e da Polícia Federal. Com isso, o dinheiro de origem ilegal virava saldo em cartões de benefícios, o que dificultaria o rastreamento da propina.
Propina era registrada como “despesas ticket delegacia” em relatórios paralelos do grupo criminoso. Um dos envolvidos no esquema também era chamado informalmente de “Cleber do ticket”, em referência à forma de ocultação de patrimônio.
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Hangar da polícia de SP foi ponto de pagamento de propina a agentes, diz MP
Fonte: UOL
