A enfermeira Halayne Rodrigues de Souza Ávila tinha 20 anos quando recebeu o diagnóstico de câncer de ovário. A doença foi descoberta já em estágio avançado e teve diversas recidivas, transformando a história de vida da moradora de Santo Antônio de Pádua (RJ). Apesar dos desafios impostos pelos tumores, ela enxerga sua jornada como uma história de superação e amor, atributos que foram necessários para realizar o sonho de ser mãe.
Quando o câncer apareceu, em 2001, os sintomas começaram de forma sutil. “Eu sentia muita dor no estômago, mas achava que era gastrite — com o passar do tempo, a barriga foi crescendo e a dor aumentando. Foi quando procurei o médico e descobri o câncer”, lembra Halayne
Depois da confirmação, os médicos foram categóricos: seria preciso retirar os ovários e as trompas com urgência e, ainda assim, as chances de sobrevivência eram baixas.
Inicialmente, o tumor pareceu reagir bem ao tratamento. Pouco mais de um ano depois, em 2003, porém, a doença retornou: uma metástase atacou o útero e o saco posterior (região entre o útero e o reto). A cirurgia foi acompanhada de mais um ciclo de seis sessões de quimio.
“Desde o primeiro diagnóstico, já tinha medo de não ser mãe. Nessa época, o congelamento de óvulos era muito caro e pouco citado. Acho que nem poderia tentar pelo meu estágio da doença. Depois, tirei o útero. Mas tinha na cabeça que a maternidade aconteceria de alguma forma para mim”, conta.
Durante quase uma década, Halayne ficou sem sinais do câncer no corpo. Porém, 10 anos após o primeiro diagnóstico, ele voltou a aparecer, dessa vez na bexiga e no intestino. O estado era tão avançado que a enfermeira precisou passar por um complexo ciclo de quimios e cirurgias para tentar preservar ao menos parte de sua bexiga. Entre 2011 e 2024, Halayne passou por mais de 10 cirurgias.
Ela ficou mais quase cinco anos sem a doença — mas, em 2017, apareceram mais tumores, atingindo o reto, o intestino e o diafragma (espécie de cobertura entre o sistema digestivo e o respiratório). “Essa cirurgia foi a mais desafiadora, pois tive uma intercorrência durante a recuperação. Tive uma fístula no ureter e precisei passar por uma nova cirurgia na semana seguinte. Usei bolsa de colostomia por dois anos e passei por mais seis ciclos de quimioterapia a cada 21 dias”, define ela.
Em 2021, uma nova recidiva, dessa vez na pleura, película que envolve os pulmões. O tumor exigiu uma nova e delicada cirurgia e, desde então, Halayne toma bloqueadores hormonais para tentar reduzir os retornos da doença.
O diagnóstico mais recente, de 2024, mostrou que a doença estava no tórax. “Coloquei uma prótese de titânio no tórax. Atualmente, sigo com uma nova medicação para tentar estacionar a doença. Sigo lutando contra o câncer. Faço exames a cada três meses. Tudo foi, e ainda é, muito difícil”, afirma.
Resistência e novas esperanças
O peso emocional das duas décadas de tratamento foi tão intenso quanto os efeitos físicos. Halayne descreve o medo que sentia antes de cada cirurgia, sem saber se voltaria para casa. As dores, os efeitos da quimioterapia e a rotina de exames a cada três meses moldaram uma vida em constante suspensão.
Ainda assim, o sonho da maternidade nunca desapareceu. Ela falava sobre o assunto com colegas de trabalho ou outras pacientes em tratamento e, em uma dessas conversas, ela conheceu o projeto Nós Tentantes. O grupo foi criado em 2019 a partir da vivência do casal fundador e oferece uma rede de apoio e informação para quem deseja viver o sonho de aumentar a família usando ovodoação ou barriga solidária.
“Sabemos como a informação é poderosa para quebrar o isolamento e mostrar que não existe um único caminho para gerar”, conta Karina Steiger, idealizadora do projeto.
Inicialmente, Halayne foi informada de que a espera por um óvulo poderia levar de seis meses a um ano. Para sua surpresa, porém, em apenas quatro meses o processo avançou. A cada etapa, a possibilidade da maternidade deixava de ser apenas um desejo distante e se tornava mais próxima da realidade.
O momento decisivo aconteceu quando Raquel, prima de seu esposo, ofereceu-se para ser barriga solidária. “Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Senti uma gratidão profunda e um amor imenso pela Raquel. Ela é um ser humano extraordinário, que transformou um processo cheio de desafios em algo leve, repleto de amor e generosidade”, lembra Halayne.
Em 2023, Ravi nasceu. O bebê simbolizou para a enfermeira a superação de duas décadas de tratamento. Raquel não apenas gerou a criança, mas também se tornou madrinha de batismo, consolidando um vínculo que Halayne descreve como eterno.
Os casos de câncer de ovário costumam ser fáceis de tratar quando descobertos precocemente, mas três em cada quatro pacientes só descobrem a doença em estágios avançados, tornando o prognóstico desafiador.
“O câncer de ovário continua sendo um grande desafio para a oncologia. Por isso, é fundamental ampliar a conscientização sobre os fatores de risco, incentivar consultas regulares com especialistas e, sobretudo, identificar mulheres que fazem parte do grupo de risco aumentado. Informação e diagnóstico precoce são ferramentas essenciais para mudar a jornada da paciente”, afirma o oncologista Fábio Fin.
Fonte: Metrópoles