INÉDITO: Cientistas identificam primeiro tipo de câncer “contagioso” em peixes; VEJA COMO OCORRE TRANSMISSÃO
REPRODUÇÃO O TEMPO
Desde 2012, pescadores e biólogos vêm notando algo estranho em um lago que atravessa a fronteira entre Vermont, nos Estados Unidos, e Quebec, no Canadá: lesões escuras e salientes estavam surgindo em muitos bagres da espécie Ameiurus nebulosus – conhecidos como bagres-cabeçudos marrons.
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Entre 2014 e 2017, essas manchas foram diagnosticadas como melanomas malignos em até 37% dos peixes no Lago Memphremagog, um índice muito acima do observado em outras populações da espécie. Agora, um estudo publicado na revista “Nature” revela a origem do problema: trata-se de um câncer transmissível.
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O fenômeno raro faz com que células cancerígenas passem de um animal para outro, comportando-se mais como um parasita do que como uma doença que nasce dentro do corpo do indivíduo afetado. Até agora, a ciência conhecia apenas três tipos de câncer transmissível ocorrendo naturalmente em animais.
O primeiro do tipo foi um tumor venéreo transmissível dos cães, que existe há milênios e costuma regredir sozinho; há também o tumor facial dos demônios-da-tasmânia, quase sempre fatal e responsável por um declínio populacional de 90% da espécie.
O terceiro tipo idenficado trata-se de uma espécie de leucemia que afeta diversas espécies de moluscos bivalves, como mexilhões e amêijoas. O melanoma dos bagres do Lago Memphremagog é agora o quarto caso documentado – e o primeiro identificado em um peixe e em um ambiente de água doce.
Metodologia da pesquisa
A equipe, liderada por pesquisadores da Universidade de Vermont, sequenciou o genoma completo do tecido tumoral e do tecido saudável de dezenas de peixes, comparando-os entre si e com populações de referência de outros corpos d’água. Se o câncer fosse convencional, o DNA de cada tumor deveria se parecer mais com o DNA do próprio peixe em que ele cresceu.
O observado pelos pesquisadores foi exatamente o oposto: os genomas dos tumores eram mais parecidos entre si – inclusive entre peixes sem parentesco algum – do que com o tecido saudável de seus respectivos hospedeiros.
O time identificou centenas de milhares de variantes genéticas compartilhadas entre as amostras de tumor, mas ausentes nos peixes hospedeiros – um volume muito superior ao que se espera de cânceres convencionais. Como comparação, os pesquisadores analisaram melanomas humanos catalogados no “The Cancer Genome Atlas”: entre 463 casos, 94% das mutações eram exclusivas de um único tumor, e apenas 0,008% delas apareciam em dez ou mais pacientes diferentes.
Nos bagres, o padrão foi inverso: a maioria das mutações específicas de tumor era compartilhada por pelo menos 14 dos 16 peixes analisados. Os cientistas também não encontraram nenhum vírus ou micro-organismo associado às lesões, o que reforça a hipótese de que as próprias células cancerígenas – e não um agente infeccioso externo – sejam o vetor de transmissão.
Como ocorre a transmissão
O estudo não conseguiu determinar com certeza o modo de transmissão. Os autores especulam algumas possibilidades, inspiradas no que já se sabe sobre os outros cânceres transmissíveis: contato físico durante a desova – os bagres se aglomeram em áreas pequenas nessa época do ano –, transferência indireta pela água (como ocorre com bivalves) ou até contato com células cancerígenas presentes no sedimento do fundo do lago, já que a espécie não tem escamas e vive próxima ao leito.
Chama atenção a velocidade da disseminação: em apenas três anos, entre 2012 e 2015, o câncer já infectava cerca de 30% da população de bagres do lago – indício de uma alta taxa de transmissão. Ainda não se sabe, porém, como esse câncer afetará a população de bagres no longo prazo.
Os pesquisadores citam os precedentes conhecidos como um alerta: enquanto o tumor dos demônios-da-tasmânia quase levou a espécie à extinção, o câncer transmissível de bivalves convive com populações que, em geral, sobrevivem, com mortalidades pontuais.

Com informações de O TEMPO
