Inflação volta a subir no Brasil e dificulta corte de juros; VEJA DETALHES:

EM ALTA - Posto de combustível: o aumento do preço da gasolina e do diesel afeta toda a economia (Dirceu Portugal/Fotoarena/Ag. O Globo/.)

A inflação voltou a pesar na vida de milhões de brasileiros — e com mais intensidade do que se esperava. Depois de um 2025 marcado por certa acomodação dos preços, sustentada principalmente pela valorização do real frente ao dólar, o cenário agora mudou bastante.

Os impactos da guerra no Irã começaram a se espalhar pela economia brasileira, tornando a inflação de 2026 mais alta e persistente. Para o governo Lula, isso representa um revés difícil: o aumento de preços reduz a renda das famílias, afeta o humor do eleitorado e pressiona a popularidade em um ano eleitoral. Além disso, complica os planos do Banco Central de acelerar a queda dos juros, o que tende a manter o crédito caro por mais tempo.

Para o consumidor, o efeito é direto no bolso, atingindo o poder de compra após uma sequência de crises desde a pandemia de covid-19. Como explica o economista Danilo Igliori, mesmo que a guerra terminasse agora, os impactos já seriam significativos por causa da alta do petróleo — e não há sinais de que o conflito acabe tão cedo.

Por enquanto, boa parte dos aumentos está concentrada em combustíveis e fretes, o que é esperado, já que esses setores dependem diretamente do petróleo. No entanto, os reajustes começam a se espalhar por outros segmentos da economia. Segundo Guilherme Moreira, da Fipe, a tendência é de alta generalizada, já que empresas enfrentam insumos mais caros e repassam esses custos gradualmente ao consumidor.

O ponto de virada foi a intensificação do conflito no Irã, após ataques dos Estados Unidos e de Israel no fim de fevereiro, afetando o fluxo de exportações do Oriente Médio — uma região essencial para a produção global de petróleo. Com isso, o preço do barril saltou de cerca de 70 dólares para mais de 100 dólares em poucos dias, reacendendo a pressão inflacionária no mundo e no Brasil.

Os indicadores recentes confirmam esse cenário. O IPCA-15 de abril mostrou alta expressiva nos combustíveis: o diesel subiu 16% e a gasolina 6%. Nos alimentos, a inflação também acelerou, passando de 0,9% em março para 1,7% em abril — a maior variação mensal em dois anos.

A alta dos alimentos tem relação direta com o aumento dos custos no campo. A produção agrícola depende de diesel e fertilizantes, ambos afetados pelos preços internacionais, além do encarecimento do transporte. Na indústria, o IPA da FGV avançou 3,5% em abril, a maior alta em cinco anos, indicando pressão nos custos de produção.

Esse cenário sugere que a inflação ainda pode subir mais. A expectativa de que o índice convergisse para o centro da meta praticamente desapareceu. A meta oficial é de 3% ao ano, com tolerância entre 1,5% e 4,5%, mas o IPCA-15 já atingiu 4,4% em 12 meses até abril, e as projeções de mercado indicam 4,9% ao fim de 2026.

Na prática, isso dificulta a política monetária. O Banco Central, presidido por Gabriel Galípolo, reduziu a taxa Selic para 14,5% ao ano, mas em ritmo mais lento. Antes do conflito, o mercado esperava cortes mais rápidos, mas o novo cenário impõe cautela e prolonga o período de crédito caro.

Esse movimento não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve manteve os juros entre 3,5% e 3,75%, refletindo um ambiente global de incerteza. Ainda assim, há expectativa de possíveis mudanças futuras na condução da política monetária americana.

No Brasil, fatores internos também influenciam. Enquanto defende juros mais baixos, o governo busca estimular a economia com aumento de gastos, programas sociais e expansão do crédito. Embora isso ajude a atividade econômica, pode também pressionar a inflação e reduzir a eficácia da política monetária.

No fim das contas, a inflação atual resulta de uma combinação de fatores externos — como o conflito no Oriente Médio — e internos. E, como costuma acontecer, quem sente o impacto direto é o consumidor.

Com informações de VEJA.