DESESPERO: Irã não imaginava que EUA pudesse fazer bloqueio no estreito de Ormuz com tanta efetividade;

Lancha se aproxima de navio no Estreito de Ormuz — Foto: Giuseppe CACACE / AFP

O bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos no Estreito de Ormuz passou a limitar a estratégia de guerrilha adotada pelo Irã no conflito, reduzindo sua capacidade de pressionar o mercado de energia e contornar sanções. Diante das dificuldades, Teerã tenta retomar negociações e enviou uma proposta a Washington por meio de mediadores do Paquistão, segundo a agência estatal Irna.

A iniciativa ocorre em meio ao agravamento da crise provocada pela ofensiva americana contra portos iranianos, adotada semanas após o início da guerra. Segundo o Wall Street Journal, a medida interrompeu as exportações de petróleo do país e aumentou a pressão sobre a economia.

Antes disso, o Irã havia tentado ganhar vantagem atacando embarcações no Estreito de Ormuz — rota estratégica por onde passa cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados no mundo. A ação interrompeu o tráfego marítimo e elevou os temores nos mercados globais.

Com a resposta dos Estados Unidos, o equilíbrio do conflito mudou. O bloqueio naval dificultou o funcionamento da chamada frota “fantasma” iraniana, usada para driblar sanções e enviar petróleo à China. Navios de guerra americanos passaram a cercar e interceptar petroleiros, impedindo o envio das cargas.

Segundo David Des Roches, ex-diretor de política para o Golfo Pérsico no Departamento de Defesa:
— O Irã conseguiu gerar instabilidade no mercado, mas isso não significa controle — avalia. — Com o bloqueio, o país enfrenta um momento decisivo.

As alternativas logísticas do Irã têm alcance limitado. O governo tenta redirecionar parte do comércio por rotas terrestres e ferroviárias, mas apenas cerca de 40% das transações poderiam escapar dos portos bloqueados, segundo entidades do setor.

O impasse também aprofunda divisões internas no país. Aliados do presidente Masoud Pezeshkian defendem conter as hostilidades e buscar acordo com os EUA, enquanto setores conservadores pressionam por retomada de ações militares para elevar o preço do petróleo e forçar concessões de Washington.

— O regime precisa romper esse impasse — afirma Saeid Golkar, da Universidade do Tennessee. — Para os moderados, prolongar a guerra pode ter um custo político alto.

Já os linha-dura consideram o bloqueio um ato de guerra e defendem resposta mais agressiva. Autoridades iranianas chegaram a mencionar o uso de novas armas e ameaçaram atingir cabos submarinos no Estreito de Ormuz, o que poderia afetar comunicações globais.

O líder supremo do país, Mojtaba Khamenei, também elevou o tom contra os Estados Unidos em declarações recentes.

Para analistas, o bloqueio passou a ser visto em Teerã como extensão do conflito.

— Não é mais um substituto da guerra, mas uma forma diferente dela — diz Hamidreza Azizi, do SWP, em Berlim.

Mesmo sob pressão, ambos os lados acreditam que o adversário acabará cedendo: os EUA apostam que a crise econômica levará o Irã a recuar, enquanto Teerã acredita que Washington pode flexibilizar o bloqueio para evitar impactos nos mercados globais.

Segundo autoridades americanas, dezenas de embarcações iranianas foram obrigadas a retornar aos portos, sem conseguir romper o cerco, e não há registros de petróleo chegando a compradores externos.

O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou que a guerra pode continuar mesmo após o fim do prazo para aval do Congresso.

O presidente Donald Trump disse que pretende manter o bloqueio até que o Irã aceite suas condições nas negociações sobre o programa nuclear.

Sem avanço nas tratativas, cresce o risco de escalada militar, com o bloqueio passando a ser tratado por ambos os lados como parte direta da guerra.

Com informações de O Globo.