Lula se assusta com repercussão da fala de Flávio Bolsonaro em Israel e solta nota
Brenno Carvalho / Agência O Globo
O discurso do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no Parlamento de Israel provocou forte repercussão internacional e acendeu um alerta imediato no Palácio do Planalto. Ao falar a parlamentares israelenses, Flávio acusou diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de adotar um discurso que, segundo ele, alimenta o antissemitismo e afasta o Brasil de países que compartilham valores democráticos e civilizatórios. A fala ganhou grande destaque nas redes sociais, na imprensa internacional e em círculos diplomáticos, ampliando o desgaste do governo brasileiro junto a Israel.
Na declaração, Flávio Bolsonaro afirmou que “o discurso de Lula e da esquerda é um discurso de ódio contra os judeus” e reforçou que o povo brasileiro não compactua com esse posicionamento. Segundo o senador, o Brasil sempre esteve ao lado de Israel e do povo judeu, relação que, na sua visão, vem sendo colocada em risco pela atual condução da política externa do governo petista. O discurso foi interpretado por aliados como um gesto político calculado de um nome que já circula nos bastidores como pré-candidato à Presidência da República.
Diante da ampla repercussão negativa e do constrangimento diplomático gerado, Lula se apressou em divulgar uma nota oficial para tentar conter danos e suavizar o impacto das declarações feitas em Israel. O presidente usou como pano de fundo o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, celebrado em 27 de janeiro, buscando reposicionar sua imagem e afastar a acusação de antissemitismo.
Na nota, Lula destacou os horrores do Holocausto e condenou o autoritarismo, os discursos de ódio e o preconceito étnico e religioso, afirmando que esses elementos foram a base da maior tragédia humanitária do século XX. O presidente também lembrou que, em 2004, participou de uma iniciativa junto à ONU para instituir oficialmente a data de 27 de janeiro como um marco internacional de memória das vítimas do Holocausto, em referência à libertação do campo de concentração de Auschwitz.
“Um dia de recordar os que perderam suas vidas e prestar solidariedade às milhões de famílias destruídas e ao sofrimento de todo um povo. Um dia de defesa dos Direitos Humanos, da convivência pacífica e das instituições democráticas”, afirmou Lula no comunicado.
Apesar do tom conciliador da nota, analistas avaliam que o gesto do presidente evidencia o incômodo do Planalto com a repercussão internacional do discurso de Flávio Bolsonaro. Nos bastidores, diplomatas reconhecem que o episódio expôs fragilidades na narrativa do governo brasileiro sobre o conflito no Oriente Médio e reforçou críticas de que o Brasil tem adotado posições vistas como hostis a Israel.
O episódio também sinaliza que a política externa e a relação do Brasil com Israel passaram a ocupar um espaço central no debate político interno, com reflexos diretos na disputa eleitoral que começa a se desenhar para 2026. Para aliados de Flávio Bolsonaro, o discurso em Israel consolidou um contraponto direto ao governo Lula; para o Planalto, a nota foi uma tentativa urgente de conter um desgaste que ultrapassou as fronteiras do país.
Por Júnior Melo
