O erro de Trump é achar que pode fazer acordos com a esquerda
Foto: Gustavo Moreno/AP
Donald Trump comete um erro recorrente ao acreditar que pode negociar com a esquerda como se estivesse diante de um adversário pragmático, movido por interesses pontuais e disposto a cumprir acordos. A experiência recente mostra exatamente o contrário: a esquerda, especialmente em regimes ideológicos como o chavismo, não negocia para ceder poder — negocia para ganhar tempo, reorganizar forças e preservar o projeto.
Na Venezuela, Trump parece ter avaliado que o caminho mais rápido seria retirar Nicolás Maduro e, em seguida, firmar um acordo com seus sucessores diretos dentro do próprio chavismo. Trata-se de uma leitura ingênua. O chavismo não é apenas um grupo político; é um sistema de poder estruturado para sobreviver a choques, sanções e mudanças de liderança. Remover um nome do topo não desmonta a engrenagem. Ao contrário, pode reforçá-la, dando uma aparência de renovação sem qualquer mudança real.
O mesmo equívoco se repete quando Trump acredita que pode “se entender” com Lula no Brasil. A esquerda latino-americana pode até temer Trump pela sua imprevisibilidade e força, mas isso não se confunde com respeito ou disposição genuína ao acordo. O sentimento predominante é de hostilidade. Trump é visto como um obstáculo ideológico a ser neutralizado, não como um parceiro confiável.
A esquerda é historicamente treinada para o jogo longo: fingir, simular, recuar taticamente e até mentir, se necessário, até alcançar seus objetivos estratégicos. Concessões momentâneas fazem parte do método. A própria presidente interina da Venezuela, ao sinalizar cooperação com os Estados Unidos, o faz mais por constrangimento e necessidade do que por convicção — e já busca, nos bastidores, uma saída que preserve o núcleo duro do chavismo.
O erro, portanto, não é apenas de cálculo político, mas de compreensão do adversário. Acreditar que acordos formais bastam para domesticar projetos ideológicos é desconhecer como a esquerda opera quando está acuada. Trump pode vencer batalhas pontuais, mas, se insistir em confiar em pactos com quem o vê como inimigo existencial, continuará entregando tempo e oxigênio a sistemas que sobrevivem justamente da dissimulação.
Por Júnior Melo
