O FIM DO MUNDO NUM PISCAR DE OLHOS: Cientistas explicam teoria do falso vácuo VEJA
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A possibilidade de o universo acabar de maneira instantânea — praticamente em um piscar de olhos — parece saída de uma obra de ficção científica. Ainda assim, a hipótese existe dentro da física moderna e é baseada em cálculos teóricos considerados consistentes pela comunidade científica.
O cenário está relacionado à chamada hipótese do falso vácuo, conceito da teoria quântica de campos que questiona se o universo realmente se encontra em seu estado mais estável.
Apesar do impacto da teoria, especialistas afirmam que não há motivo para alarme. A hipótese jamais foi comprovada experimentalmente e é vista como extremamente improvável em qualquer escala de tempo próxima da experiência humana.
O que é a teoria do falso vácuo?
No senso comum, o vácuo costuma ser entendido como “nada”. Na física, porém, o termo descreve o estado de menor energia dos campos fundamentais presentes em todo o universo.
A hipótese sugere que o estado atual do cosmos talvez não seja o mais baixo possível em termos de energia. Segundo o físico teórico Rendisley Aristóteles dos Santos, de Brasília, o universo pode estar em um estado chamado metaestável — aparentemente estável, mas não definitivo.
“Para entender melhor, a comparação mais usada é a de uma bola parada em um vale. Ela não se move e aparenta estabilidade, mas pode existir uma descida profunda próximo. O local atual seria o falso vácuo — o mais profundo, o vácuo verdadeiro”, explica.
Esse tipo de configuração pode durar bilhões de anos, inclusive mais do que a própria idade do universo, sem deixar de ser potencialmente instável.
Relação com o campo de Higgs
A hipótese do falso vácuo ganhou força a partir de estudos sobre o comportamento do campo de Higgs, responsável por conferir massa às partículas fundamentais.
Medições feitas dentro do Modelo Padrão da Física de Partículas — especialmente envolvendo o bóson de Higgs e o quark top — indicam que o universo pode estar em uma região delicada entre estabilidade e instabilidade.
Isso não significa que uma transição vá ocorrer, mas demonstra que a hipótese é compatível com as equações da física quando extrapoladas para níveis de energia extremamente altos, muito além da capacidade atual dos laboratórios.
Como ocorreria o “fim em um piscar de olhos”
Caso o universo esteja realmente em falso vácuo, a mudança para um estado mais estável poderia ocorrer por meio de um fenômeno chamado tunelamento quântico.
Na física clássica, um sistema precisa acumular energia suficiente para ultrapassar uma barreira. Já na mecânica quântica, existe uma pequena chance de atravessar essa barreira sem necessidade dessa energia adicional.
Segundo o físico Gustavo Petronilo, da Bahia, isso permitiria que uma pequena região do espaço mudasse espontaneamente de estado, formando uma bolha de vácuo verdadeiro. Inicialmente microscópica, essa bolha poderia crescer ao atingir um tamanho crítico.
“Uma vez formada, a bolha passaria a se expandir rapidamente. Isso acontece porque o interior dela teria energia menor do que o espaço ao redor”, explica.
A expansão ocorreria a velocidades próximas à da luz. De acordo com o físico Ronni Amorim, professor da Universidade de Brasília (UnB), o processo afetaria diretamente os campos fundamentais do universo.
“Como o campo de Higgs poderia assumir outro valor, as massas das partículas mudariam”, afirma.
Na prática, isso implicaria em:
- perda da estabilidade dos átomos;
- impossibilidade de formação de moléculas;
- colapso da química como é conhecida;
- destruição da estrutura da matéria.
Por que não haveria aviso
Um dos aspectos mais impressionantes da hipótese é justamente a ausência de qualquer alerta prévio. Como a bolha se expandiria quase na velocidade da luz, nenhuma informação poderia chegar antes dela.
Isso significa que não haveria tempo para observação ou reação. A mudança seria instantânea para qualquer região atingida.
Mesmo diante desse cenário extremo, cientistas não tratam a hipótese como uma ameaça concreta.
“O decaimento do falso vácuo é uma consequência possível da teoria quântica de campos, mas com probabilidade extremamente baixa”, explica Amorim.
Os cálculos indicam que o tempo médio para um evento espontâneo desse tipo seria muito superior à idade atual do universo. Além disso, não existe qualquer evidência experimental de que o cosmos esteja, de fato, nesse estado.
Outro questionamento recorrente — se aceleradores de partículas poderiam desencadear o fenômeno — também é descartado pelos especialistas. As energias produzidas nesses experimentos estão muito abaixo do necessário para provocar uma transição desse tipo.
Uma hipótese importante para a física
Mesmo sem comprovação direta, a hipótese do falso vácuo é considerada relevante porque surge de cálculos consistentes dentro da física moderna.
Ela ajuda pesquisadores a compreender melhor a estabilidade do universo, o comportamento dos campos fundamentais e os limites do Modelo Padrão da Física de Partículas. Além disso, conecta áreas como cosmologia, física de partículas e estudos sobre gravidade quântica.
Em resumo, a hipótese propõe um cenário extremo: o universo poderia, em tese, mudar abruptamente de estado, a partir de uma pequena região que se expandiria quase à velocidade da luz.
Ainda assim, especialistas reforçam que se trata de uma possibilidade teórica, altamente especulativa e sem qualquer indício prático de que venha a acontecer.
Mais do que prever um “fim instantâneo”, a teoria evidencia o quanto o universo pode ser mais complexo — e menos estável — do que aparenta.
Com informações de Metrópoles.
